#0154 | Hellblade: Senua's Sacrifice (2017)


9/10 ★★★★★★★★★✰

▪ Versão: PC (Windows)
▪ Jogado em: PC (R7 5800X3D + RX 7900XTX)
▪ Controlador: GameSir T4n-Lite

▪ Lançamento: 2017
▪ Gameplay: 2025
▪ Dificuldade: Fácil ◈◈◈◇◇

Poucos jogos chegaram ao mercado com uma proposta tão corajosa quanto esta produção da Ninja Theory: os desenvolvedores consultaram especialistas em saúde mental e pessoas com vivência de transtornos, para construir uma experiência que retratasse o sofrimento psíquico com precisão e realismo jamais vistos até então. A obra é ambientada em uma releitura sombria da mitologia nórdica, vista através dos olhos de Senua, uma guerreira em colapso que avança pelos Infernos de Helheim para recuperar a alma de seu amado Dillion. O game provoca desde o primeiro instante, com uma premissa que não é simplesmente sobre combate ou exploração, mas sobre a experiência subjetiva do luto, da loucura, do amor e principalmente, da resiliência.

A narrativa é estruturada como uma descida ao inferno que espelha o estado interior da protagonista, onde o ambiente externo e o mundo interno se confundem de maneira perturbadora, algo que me levemente lembra a tortuosa jornada em Dante's Inferno, onde o desafio era justamente romper cada barreira maligna de maldição. Senua é uma personagem trágica e carrega consigo o peso de sua cultura e também de sua condição, tudo dentro de uma ambientação construída numa arquitetura de madeira podre, névoa perpétua e figuras distorcidas que surgem das sombras refletindo fielmente o estado dissociativo.

Melina Juergens, editora de vídeo da própria Ninja Theory, assumiu o papel sem experiência prévia em atuação, mas consegue entregar uma performance visceral que eleva toda a experiência emocional do jogo. A trilha sonora composta por Andy LaPlegua funciona perfeitamente junto ao trabalho de design sonoro da equipe, pois constroem uma sensação de vigia juntos as vozes da psicose, que funcionam de forma extraordinária, mixadas em áudio binaural. É praticamente uma regra nesse jogo utilizar um home theater ou um headset de qualidade, pois assim as vozes ecoam, sussurram, gritam, comentam, contradizem e alertam diretamente nos seus ouvidos. 

Este jogo foi desenvolvido utilizando o motor gráfico Unreal Engine 4, que na minha opinião é o melhor que já tivemos dessa icônica engine da EPIC, pois não sacrifica por completo a performance e ainda nos traz gráficos extremamente realistas, iluminação dinâmica espetacular e no caso de Hellblade, um mecanismo de fotogrametria que confere às texturas e rostos uma qualidade absurda, tanto em amostragem, quanto em movimento. Esta qualidade gráfica se destaca ainda mais com o uso de uma paleta visual dominada por cinzas e vermelhos apagados, reforçando a tonalidade emocional de cada sequência.

A gameplay é propositalmente contida: combate, exploração e resolução de puzzles visuais baseados em runas compõem praticamente todo o repertório mecânico. Essa economia de ferramentas é uma escolha estética e não uma limitação, pois coloca o foco total na narrativa e na imersão sensorial. Os confrontos são tensos e responsivos, com um sistema de foco que desacelera o tempo e exige leitura de inimigos, mas nunca se tornam o centro da experiência, com uma dificuldade bem facilitada. Os quebra-cabeças de perspectiva, onde Senua precisa alinhar formas no ambiente para abrir passagens, são elegantes e bem integrados ao universo, uma novidade que eu realmente não esperava e que contém inclusive um duplo sentido perante ao enredo.

VEREDITO: Hellblade: Senua's Sacrifice é uma das experiências mais corajosas e artisticamente coesas da história dos jogos, uma obra que demonstra que games também podem abordar temas delicados, neste caso, a saúde mental. Foi uma revolução gráfica em sua época, trazendo o estúdio Ninja Theory ao patamar das grandes produções, e demonstrando ainda ao mundo a qualidade de atuação escondida em Melina Juergens e uma técnica de áudio impressionante.

Obs.: Uma recomendação a quem pretende jogar este título, a imersão é fundamental, o Headset que recomendo é primordial, mas a sensação, o sentimento, é real. Não arrisque um jogo assim se sua vida psicológica já não estiver tudo bem, separe para um momento em que os acontecimentos narrativos possam lhe impressionar e não lhe derrubar, cautela é fundamental para este game.

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