
9/10 ★★★★★★★★★✰
▪ Versão: PC (Windows)
▪ Jogado em: PC (R7 5800X3D + RX 7900XTX)
▪ Controlador: GameSir T4n-Lite
Este jogo consegue uma façanha que eu não tinha visto até então: o equilíbrio entre ficção científica, drama familiar e crítica social no mundo dos games, e é justamente nesse território delicado que se move o trabalho mais recente da Sunset Visitor, estúdio indie de Vancouver. Ao pesquisar sobre a obra, achei interessante que parte da narrativa nasceu da experiência pessoal de seus criadores, durante os protestos de Hong Kong em 2019, episódio que atravessa o roteiro como uma sombra constante e traz autenticidade ao projeto, e claro, um peso narrativo muito maior.
O roteiro, feito por Pinki Li e Conor Wylie, acompanha a Observadora, uma entre milhares de serviçais que seguem à enigmática Grande Mãe, entidade que governa os sobreviventes de uma humanidade dizimada por uma pandemia de origem alienígena. No começo do jogo, a história realmente atrai pela novidade, mas na sequência tem um desenrolar um pouco desacelerado, mas que da metade para a frente, ganha uma profundiade espetacular, devido à construção dos personagens e da trama repleta de plot twist - que me impede um maior aprofundamento, pois qualquer palavra a mais, eu já consideraria spoiler.
A trilha sonora composta por Line Katcho e Drew Redman, resulta em faixas que transmitem a sensação entre o melancólico e o urgente, sublinhando cada salto temporal e também à estética prevalecente cyberpunk, sem nunca soar redundantes ao longo de tantas horas de jogo, principalmente quando elevada ao domínio lo-fi. Para mim, que ama sonatas de piano, é um prato cheio, pois é indiscutível também a qualidade de execução das faixas da obra, e este instrumento é muito presente, principalmente em momentos mais depressivos da narrativa.
A direção de arte aposta em ambientes com paleta contida, quase monocromática nas sequências do presente, contrastando com explosões de cores nas memórias, recurso que reforça visualmente a diferença entre as duas linhas temporais. Na caracterização temos um estilo japonês, mesmo o jogo não tendo raizes por lá, pois é notório o molde de desenho mangá na elaboração dos personagens e cenários, onde os criadores já deram declarações de obras como NieR:Automata e o anime Neon Genesis Evangelion (Que inclusive me levou à este jogo) serem fortes inspirações. Porém, no design de personagens - embora funcional - peca pela falta de expressividade, que inicialmente pode parecer uma escolha de direção, mas que no fim evidencia a falta de recursos do projeto indie - Vale dizer que isso é altamente compensado pelas excelente dublagens e como já citei, a trilha sonora, que compactuam para o climáx do jogo e consequentemente na construção do roteiro.
Em termos de gameplay, a proposta é predominantemente narrativa, com exploração em terceira pessoa, puzzles ambientais (e sazonais) discretos e sequências alternadas entre diferentes protagonistas jogáveis - Cada um com seu peso na história, com uma construção de personalidade indiscutivelmente única e marcante. Os controles respondem bem à movimentação e à interação com o cenário, ainda que a câmera apresente pequenos travamentos em ambientes mais fechados, algo perceptível especialmente durante perseguições ou momentos de maior tensão. A progressão é linear e guiada, o que favorece quem busca uma experiência mais contemplativa, mundo semi-abertos poderiam estar inclusos e em certos momentos dão a entender, mas concordo plenamente com a direção focada, pois o jogo já suficientemente denso. O desempenho geral se manteve estável durante a maior parte da experiência, não percebi quedas de taxa de quadros, nem mesmo em cenas com muitos efeitos visuais, sendo mais um exemplo de excelente otimização dentro da Unity.
VEREDITO: 1000xResist é uma experiência que privilegia a narrativa acima de tudo, entregando uma reflexão densa sobre memória, identidade e legado, isso tudo através de uma estrutura ambiciosa e um elenco de personagens bem construído. As limitações técnicas são pontuais e a condução por vezes desacelera a trama, mas não compromete o conjunto, consolidando como um título sólido e muito recomendável, especialmente para quem valoriza histórias bem contadas dentro do universo dos jogos. Aqui você ri, chora, teme e reflete, não apenas pelos personagens, mas pela sua vida também, pois a comparação é inevitável e eu digo isso, pois acima de tudo, este jogo é humano!