
8/10 ★★★★★★★★✰✰
▪ Versão: Nintendo Switch
▪ Jogado em: Nintendo Switch Lite
▪ Controlador: Switch Lite Grip TwiHill
A Espanha ainda é recente na indústria dos games, mas já me impressionou muito com GRIS anteriormente - jogo que zerei em 2019. E agora com Blasphemous, desenvolvido pela The Game Kitchen, mergulho desta vez em uma estética do catolicismo ibérico, arremetendo à pintura barroca. Antes mesmo de qualquer análise técnica, vale destacar uma curiosidade pouco comentada: boa parte do design visual foi inspirado em procissões reais de Semana Santa, com imagens de penitentes encapuzados que assustam à primeira vista, justamente por existirem fora da ficção, algo que confere ao projeto uma camada de autenticidade cultural raramente vista no gênero, mas que por alguns religiosos pode arremeter blasfêmia - não entrarei muito nesse âmbito, pois vai de cada um.
A narrativa se desenrola em torno de O Penitente, um guerreiro silencioso que desperta em meio às ruínas de Cvstodia, uma terra moldada por culpa, fé distorcida e milagres macabros. A história é contada de forma fragmentada, através de diálogos enigmáticos, descrições de itens e encontros com figuras que parecem mais símbolos do que personagens propriamente ditos. Essa escolha narrativa exige paciência do jogador, mas recompensa quem se dispõe a interpretar metáforas religiosas e alegorias sobre sofrimento e fanatismo - algo que particularmente não me cativou muito, pois esse modo de contar história, típico de soulslike's, não é exatamente um formato que me agrada, pois muitas vezes se perde entre a linha da intelectualidade e confusão narrativa.
No quesito artístico, o jogo impressiona pela coerência entre seus elementos visuais e sonoros. O pixel art detalhado retrata corpos mutilados, altares grotescos e arquiteturas que remetem a catedrais decadentes, criando um contraste entre beleza estética e horror temático que dificilmente passa despercebido. A trilha sonora, composta por Carlos Viola, reforça esse clima com arranjos que oscilam entre o solene e o sombrio, utilizando coros e instrumentos que evocam cerimônias litúrgicas sem nunca soar repetitivos, mas que trazem uma certa melancolia contagiosa e tenebrosa ao mesmo tempo. A ambientação sonora também merece elogio, já que os efeitos de combate e os ruídos do cenário ajudam a manter a tensão, que vai desde os passos do protagonista em meio ao vácuo dos cenários, como o tilintar de espadas que encanta de tão preciso.
Em termos de jogabilidade, o título se posiciona como um metroidvania de ação com forte influência de soulslike's, exigindo timing preciso, leitura de padrões de inimigos e gerenciamento cuidadoso de recursos. Os controles respondem bem, até mesmo no parry, embora a curva de aprendizado inicial possa afastar jogadores menos habituados a esse tipo de desafio, particularmente recomendo experenciar jogos mais brandos antes de se aventurar na dificuldade extrema de Blasphemous.
A progressão de habilidades é satisfatória, com novas áreas se abrindo de forma orgânica conforme o personagem evolui, e os pontos de checkpoint estão bem distribuídos para evitar frustração excessiva e exageros de roolbacks - Embora alguns deles abusem na distância dos bosses. No quesito desempenho, a experiência se mostra estável, com taxa de quadros consistente e poucos momentos de queda perceptível, mesmo durante embates mais caóticos contra chefes, onde temos raios e poderes para todo lado.
VEREDITO: Blasphemous é uma obra que equilibra ousadia temática com execução técnica sólida, entregando uma experiência que se destaca tanto pela direção artística quanto pelo desafio alto, porém com controles bem calibrados para o combate. Ainda que a narrativa hermética possa distanciar parte do público mais casual, quem se permite explorar seus simbolismos encontra um trabalho coeso e memorável, capaz de justificar com facilidade uma nota que reconhece tanto sua qualidade artística quanto sua competência mecânica.